segunda-feira, 20 de abril de 2020

O OVO DA SERPENTE



(um elogio à pena de talião)



"Eu sou a Constituição!" -
jura, com uma mão no coração.
com a outra mão,
tosse, cospe e sem compraz
de ser o último rei absoluto,
ilegítimo, perverso e sem galardão.


ele está puto, isto é nítido.
isolado e tonto, em meio ao cadáver,
que fede a recente decomposição,
ele está emocionado e, vertiginoso,
muda o tom da afirmação:
"Agora, sou o Estado, não haverá Constituição!"


o gado ferve em comoção
e esse verme em ascensão,
outrora de fácil eliminação,
se multiplica com velocidade.
encara, firme, toda autoridade,
e não vê mais muros em seu campo de visão.


não mais de bananas vive a República,
nem, tampouco, de omissão.
por respiradores e convalescente,
os três poderes, antes coerentes,
estão dispersos e se acovardam
frente à mutação (inesperada) de um parasita em serpente.


esta serpente cria frestas na casca do ovo,
pela qual a luz aquece sua pele incauta.
ela se mexe e contorce, feito parte de um povo
para o qual a liberdade e democracia não estão em pauta.
deseja a presa envenenada e abraçada, sem poder escapar,
para, enfim, dobrar de tamanho, ao engoli-la sem mastigar.


mas o rei absoluto não é o ovo, nem a serpente;
ele é, tão somente, o lagarto sorrateiro,
"ratón" torpe e pouco faceiro:
um gambá, por definição, que, com as garras afiadas,
não racha a cara, mas a casca do ovo da serpente
plantando para o futuro mal a semente.


tal como as abelhas ou pássaros,
que rasgam o céu e lançam ao solo
as árvores que hão de ser cortadas
pela sanha das bancadas armadas,
o rei ilegítimo planta a morte de norte a sul
e colherá restos mortais, feito urubu.


o ovo trinca a casca,
cheira a podre,
e convida cães já esquecidos.
a cadela alerta e faminta
sobe as orelhas, de fome e tesão,
dando sinais de ataque próximo, sem compaixão.


mesmo no caos, aparentemente evidente,
que o rei e seus súditos não se esqueçam:
toda serpente arrasta o ventre
e está fadada à punição da História
e todo aquele que outro homem mortalmente fere
será de morte ferido muito antes do que espere.







sexta-feira, 17 de abril de 2020

trocando ideia com Dulcinéa



uma crônica cômica para a atualidade

Eles me querem morto, Paixão!...
Te querem?
Não, Paixão... querem que eu morra.
Mas você vai morrer, uai! Eles querendo ou não.
Não, Paixão! Eles querem fazer com que eu morra.
Ah, sim! Nesse caso, não há outra coisa a se fazer a não ser fugir. Cê tem passaporte?
Paixão, eu não tenho nem mais de um par de sapatos, como cê quer que eu tenha passaporte ?! Além do mais, esse negócio de voar tá tão perigoso que, se eu tentar fugir desse jeito, ainda corro o risco de morrer sem que eles me matem!
Então! Aí está a solução!
Como assim, Paixão?
Ué, vê bem: se você morrer num acidente de avião, estará a salvo de morrer pela mão desses que te querem morto.
Paixão, eu não quero morrer nem de um jeito, nem de outro!
Ué, mas aí fica difícil...
Difícil o que, Paixão?
Uai, você não quer morrer nem de um jeito, nem de outro... você acha que vai ficar pra semente?
Não é nada disso. É que neste momento da vida eu não gostaria de morrer, nem em um acidente de avião, muito menos pelas mãos deles.
É... aquele frango assado que a gente comeu ontem também não queria morrer, e olha no que deu.
Ah! Quer saber?! Vou pegar um ônibus para Foz do Iguaçu; dificilmente me procurarão lá.
E como vc tem tanta certeza?
Porque eles são jurados lá por aquelas bandas.
De televisão ou de tribunal?
O quê??
Cê disse que eles são jurados; quero saber se de programa de auditório ou de júri, de tribunal e tudo...
Ah, Paixão, não é possível conversar contigo...
Como não? Estamos conversando já tem uns minutinhos.
É, você não entende nada mesmo!
Talvez porque vc não me explica nada. Já tem um tempinho que vc fica aí falando que “eles te querem morto”, mas não disse ainda quem são eles?
Achei que você soubesse, Paixão.
Não. Quem são?


Os moinhos de vento...