(um elogio à pena de talião)
"Eu sou a Constituição!" -
jura, com uma mão no coração.
com a outra mão,
tosse, cospe e sem compraz
de ser o último rei absoluto,
ilegítimo, perverso e sem galardão.
ele está puto, isto é nítido.
isolado e tonto, em meio ao cadáver,
que fede a recente decomposição,
ele está emocionado e, vertiginoso,
muda o tom da afirmação:
"Agora, sou o Estado, não haverá Constituição!"
o gado ferve em comoção
e esse verme em ascensão,
outrora de fácil eliminação,
se multiplica com velocidade.
encara, firme, toda autoridade,
e não vê mais muros em seu campo de visão.
não mais de bananas vive a República,
nem, tampouco, de omissão.
por respiradores e convalescente,
os três poderes, antes coerentes,
estão dispersos e se acovardam
frente à mutação (inesperada) de um parasita em serpente.
esta serpente cria frestas na casca do ovo,
pela qual a luz aquece sua pele incauta.
ela se mexe e contorce, feito parte de um povo
para o qual a liberdade e democracia não estão em pauta.
deseja a presa envenenada e abraçada, sem poder escapar,
para, enfim, dobrar de tamanho, ao engoli-la sem mastigar.
mas o rei absoluto não é o ovo, nem a serpente;
ele é, tão somente, o lagarto sorrateiro,
"ratón" torpe e pouco faceiro:
um gambá, por definição, que, com as garras afiadas,
não racha a cara, mas a casca do ovo da serpente
plantando para o futuro mal a semente.
tal como as abelhas ou pássaros,
que rasgam o céu e lançam ao solo
as árvores que hão de ser cortadas
pela sanha das bancadas armadas,
o rei ilegítimo planta a morte de norte a sul
e colherá restos mortais, feito urubu.
o ovo trinca a casca,
cheira a podre,
e convida cães já esquecidos.
a cadela alerta e faminta
sobe as orelhas, de fome e tesão,
dando sinais de ataque próximo, sem compaixão.
mesmo no caos, aparentemente evidente,
que o rei e seus súditos não se esqueçam:
toda serpente arrasta o ventre
e está fadada à punição da História
e todo aquele que outro homem mortalmente fere
será de morte ferido muito antes do que espere.

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